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Antonina Levchuk – co-fundadora e voluntária da fundação de caridade “Salvamos vidas juntos”

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Autor: Iryna Stelmakh
Fonte: Rádio Svoboda

Ela imigrou da Ucrânia para os Estados Unidos há 9 anos atrás. Hoje, trabalha em IT, e nos últimos dois anos angaria ajuda para a frente de batalha. A fundação que Antonina Levchuk criou com outra voluntária – Iryna Pylypenko – não é só oficialmente registada nos EUA mas, também, angaria fundos dos gigantes como a Google ou Microsoft. Logo após a sua visita a Kyiv, a Antonina Levchuk contou à Rádio Svoboda sobre caridade americana, 2 milhões de doláres em doações em dois anos, voluntários-políticos, próteses e terapia de contos de fadas.

Como se tornar um voluntário? Muitos foram motivados para executar esta honrosa missão pelo facto de ter amigos ou familiares na frente de batalha…

Bem, a minha história é a mesma. Os meus amigos e cunhado foram para a frente de batalha, por isso não consegui simplesmente ficar quieta a ver as notícias. Ao mesmo tempo um amigo, que viveu na Alemanha, falou sobre Celox (nota: hemostático para parar o sangramento) e que é impossível comprar na Ucrânia. Então começamos no Celox. No início comprava sozinha, depois os amigos ofereceram ajuda e fizemos um fundrising online. Assim conheci a Iryna Pylypenko, que vive em St. Louis. Mais tarde juntou-se a nós a Elina Lerman de Los Angeles e Dmytro Topchiy de Nova York. Temos uma equipa muito forte e decente. E, mesmo estando todos muito cansados, apoiamo-nos sempre uns aoss outro e trabalhamos lado a lado.

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Os voluntários da fundação de caridade “Salvamos vidas juntos”

Dois milhões de dólares que angariou na fundação “Salvamos vidas juntos” («Save Lives Togeter») é um montante considerável. Lembra-se quem foi o primeiro doador e qual doação foi a maior?

A fundação foi lançada oficialmente em setembro de 2014. As primeiras doações chegaram de amigos e amigos de amigos. Em seguida, o dinheiro começou a chegar de todo o mundo, incluindo da Rússia. Eu ainda tenho um álbum com mensagens de pessoas que doaram dinheiro. Os valores eram diferentes: de 5 dólares a dezenas de milhares. No entanto, estes dois milhões não são só o fluxo de caixa, mas também medicamentos e equipamentos. Recentemente, por exemplo, entregaram-nos medicamentos para o departamento cirúrgico no montante de 29 mil dólares. Cooperamos ativamente com os distribuidores de medicina tática e equipamentos médicos que nos fazem descontos significativos.

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Ambulâncias para a linha da frente oferecidas pela fundação “Salvamos vidas juntos”

É necessário manter a transparência com montantes tão significativos, e registar uma fundação nos Estados Unidos não é fácil. Qual é o vosso regime de funcionamento?

Sim, claro que uma fundação de caridade, sem fins lucrativos, é um negócio sério e responsável nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, o processo de registo em si é muito difícil e exige uma grande quantidade de tempo e esforço. Como os fundos não são tributáveis, tivemos que explicar ao governo dos EUA como eles serão utilizados. Pois os potenciais impostos sobre esses fundos não entram para orçamento do país. Portanto, temos que ter muito cuidado e atenção nos relatórios e na atividade em si. Cada cêntimo gasto por nós tem que ser contabilizado obrigatoriamente. Nós entendemos perfeitamente o quão difícil é ganhar dinheiro e, portanto, damos valor a cada cêntimo que entra no fundo. Além disso, nenhum de nós recebe qualquer salário e não temos escritório nos EUA.

Então mas onde trabalham?

Temos um armazém em New Jersey. Ukraine Express permitiu-nos usá-lo gratuitamente. Também ajuda com logística. A nossa principal prioridade no planeamento do orçamento é a poupança.

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Página oficial da fundação de caridade “Salvamos vidas juntos”

Além de residentes dos EUA, vocês foram mais a frente e dirigiram-se aos gigantes como Google e Microsoft. No total, os colaboradores dessas empresas doaram à fundação, e, assim, à Ucrânia, mais de 50 mil dólares. Quais foram os vossos argumentos utilizados? Os EUA têm no orçamento centenas de milhões de dólares de assistência financeira à Ucrânia e era natural ouvir a resposta “ já demos ajuda suficiente”?

A nossa fundação faz parte de Employee Giving and Matching Program da Microsoft, Google, Oracle Corporation, McKinsey&Company, Cadence Design Systems, Hewlett-Packard, Bank of America, Motorola Mobility Holdings entre outras entidades. A quantidade de doação dos funcionários dessas empresas para o fundo é duplicada pela empresa. Por exemplo, quando o funcionário da Microsoft vai doar 100 dólares, a Microsoft também doa para o nosso fundo 100 dólares. Não é fácil fazer parte deste tipo de programas, mas nós conseguimos. Já recebeu da Microsoft cerca de 30 mil dólares e cerca de 27 mil da Google. A fundação também é um membro da Amazon Smile, portanto obtemos descontos em compras das pessoas que adicionaram a nossa fundação ao seu perfil.

A situação económica e aumento dos preços fazem com que o ucraniano da classe média não pense no soldado do leste como prioridade. E como diminuiu a vontade de ajudar dos americanos ao “pobre país distante”?

Realmente as doações diminuíram bastante. Infelizmente o nível das doações depende proporcionalmente ao número de más notícias da frente de batalha. Assim, um dos objetivos da nossa equipa é explicar às pessoas que este tipo de assistência deve ser sistemática. Assim o impacto é muito mais elevado.

Neste momento está envolvida no projeto “Vencedores” e projeto de próteses, organiza a correspondência dos combatentes com a diáspora. Que planos tem para futuro?

Um amigo americano perguntou-me: Quanto tempo demora descer de elevador na estação de metro mais profunda de Kiev? Eu respondi: bem, há duas escadas rolantes. E ele disse: Então como descem os deficientes? E as mães com carrinhos de bebé? Só então é que percebi que a Ucrânia tem um grande problema, porque mesmo num hospital militar não há elevadores. Portanto, nós nos juntámos ao projeto social “Vencedores”, para assim alterar a atitude da sociedade e do estado para com as pessoas com deficiência. Com o tratamento adequado e próteses, as pessoas amputadas podem continuar a vida normal. Todos os fundos recolhidos durante o projeto são direcionados para o desenvolvimento de próteses modernas na Ucrânia.

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Projeto “Vencedores”

Mas em breve vamos ter outro projeto. Queremos lançar na Ucrânia o primeiro método preventivo chamado “kazkoterapia” (i.e. terapia de contos de fadas), destinado a prevenir vários tipos de vícios.

Em que consiste esse projeto?

O projeto tem como objetivo a realização de um programa alargado de prevenção de toxicodependência, alcoolismo, vício do jogo e tabagismo na idade pré-escolar e do primeiro ciclo escolar. Exatamente nessa idade é especialmente importante influenciar corretamente o desenvolvimento da criança. Regras que são “absorvidas” neste período servem como modelo de comportamento ao longo da vida. É inútil explicar aos jovens de 14-16 anos sobre o perigos das drogas, se regras incorretas foram introduzidas nas suas mentes muito antes do que isso. Sabe-se que aos 10 anos, em crianças prevalece pensamento com o lado direto do cérebro. Assim, a informação mais importante para o seu desenvolvimento e socialização vem através de imagens coloridas de contos de fadas. É por isso que o conto de fadas é a melhor maneira de transferir conhecimento sobre o mundo para a criança.

O projeto vai abranger os 5 maiores cidades da Ucrânia – 120 escolas e 30 jardins de infância (19.500 crianças e suas famílias). Às crianças vão lidas e encenadas três contos terapêuticas: “O Conto de alegria perdida”, “Ténis de corrida e chinelo”; “O conto moderado” que visam a prevenção de álcool, drogas, vícios de computador e são destinadas a desenvolver a sensibilidade de limite logo na infância. Além disso, vai ser explicado aos pais e professores o processo educacional das crianças com base nesses contos.

No entanto, após a sua última visita, escreveu um post numa rede social um pouco dececionado sobre a situação na Ucrânia, mencionou os «voluntários VIP” e desejou-lhes uma carreira política bem sucedida. Como alguém “de dentro” quais mudanças notou no movimento voluntário nestes dois anos?

Eu acredito que só é possível mudar alguma coisa se os profissionais fizerem parte do Governo. Eu compreendo que há heróis-voluntários e heróis-militares mas, será que eles são suficientemente qualificados para estar em posições de governo? Acho que não. Como podemos esperar as reformas e mudanças às leis se maioria no parlamento não entende o processo? Durante estes dois anos muita coisa mudou. Antes trabalhávamos todos como uma equipa única para mesmo objetivo, e agora eu sinceramente não entendo o que está a acontecer.

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Os voluntários da fundação “Salvamos vidas juntos”

A Fundação e a própria Antonina têm muitas honras e prémios. Para acabar, gostaria de perguntar sobre uma delas, sobre a “mulher de paz” (A revista “Focus” em 2014 colocou esta categoria no primeiro lugar no ranking das “100 mulheres mais influentes da Ucrânia”, referindo-se às voluntárias do sexo feminino). O que quer dizer para si esse estatuto? O que significa ser uma “mulher de paz”?

Na verdade, o estatuto não mudou nada na minha vida. Nem sei o que mais posso acrescentar. Quero que esta guerra termine, que as pessoas deixem de morrer. A nossa fundação recebeu mais um prémio – o “Herói Nacional da Ucrânia“. Isso é que foi muito bom!

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